**Resumo de *Assassinatos na Academia Brasileira de Letras*, de Jô Soares**
*Assassinatos na Academia Brasileira de Letras* é um romance policial escrito por Jô Soares, lançado em 1996. A obra se passa no Rio de Janeiro, nos anos 1920, e é uma trama que mistura mistério, humor e crítica social, características marcantes do autor. A história gira em torno de uma série de assassinatos que ocorrem na prestigiada instituição cultural brasileira, a Academia Brasileira de Letras (ABL), um cenário insólito e inusitado, o que adiciona uma dose de sátira literária e um jogo metalinguístico ao enredo.
### O Enredo
A narrativa começa com o desaparecimento de um importante membro da Academia, o escritor e poeta Afrânio Gouveia. Ele é encontrado morto em circunstâncias misteriosas, com marcas de violência em seu corpo. O caso é tratado inicialmente pela polícia, mas devido à falta de pistas e ao seu caráter de alta relevância social, o caso acaba chamando a atenção de um dos membros da ABL: o escritor e detetive amador, o próprio narrador da história, um alter ego de Jô Soares.
O narrador, que se encontra no centro da trama, decide investigar o assassinato, movido pela curiosidade e pela necessidade de entender as motivações por trás da morte de Afrânio. A medida que a investigação avança, o mistério se aprofunda, e logo surgem outros assassinatos, com vítimas que, à primeira vista, não têm nenhuma ligação direta umas com as outras, mas que compartilham uma característica peculiar: todas são figuras da cultura literária brasileira.
O processo investigativo é marcado pela presença de uma série de personagens excêntricos, muitos deles pertencentes ao universo literário da época. Cada um desses personagens é uma caricatura que representa um estereótipo dos escritores e intelectuais da época, contribuindo para o tom humorístico e satírico da obra. A ABL, que deveria ser um espaço de erudição e prestígio, é apresentada de forma cômica, como um ambiente repleto de intrigas, ciúmes, rivalidades e vaidades pessoais.
### Os Personagens
O livro é rico em personagens, cada um com suas particularidades e características que acabam refletindo, de maneira bem-humorada, a sociedade brasileira da época. Entre os principais, destacam-se:
- **O narrador-detective:** Ele é uma espécie de alter ego de Jô Soares, um escritor com um humor peculiar, que adota o papel de detetive amador para resolver os assassinatos. Sua investigação, marcada pelo sarcasmo e ironia, é conduzida com uma mistura de desinteresse e curiosidade, refletindo o caráter irreverente do autor.
- **Afrânio Gouveia:** O primeiro membro da ABL a ser assassinado, Afrânio é um personagem enigmático, cuja morte dá início aos mistérios da trama. Sua morte é misteriosa, e sua história é repleta de ambiguidades e segredos não revelados.
- **Os membros da ABL:** Outros escritores e intelectuais que são personagens recorrentes na história, muitos deles caricaturais e com atitudes arrogantes, pretensiosas ou vaidosas. Jô Soares utiliza esses personagens para criar um retrato cômico da classe literária brasileira, frequentemente criticando seus comportamentos e suas obsessões.
- **O investigador policial:** A polícia é representada de forma ineficaz e atrapalhada, frequentemente sendo retratada como incapaz de solucionar os casos, o que leva o narrador a se lançar na investigação de forma mais assertiva.
### A Crítica Social e Literária
A obra não se limita a ser uma simples história de mistério, mas também oferece uma reflexão sobre a cultura literária e a classe intelectual brasileira, particularmente aquela representada pela Academia Brasileira de Letras. Jô Soares, com sua característica ironia, faz uma crítica ao mundo literário, mostrando-o como um espaço marcado pela competição, pelo egocentrismo e pelas rivalidades pessoais.
A Academia, que em sua essência deveria ser um local de produção e preservação cultural, é retratada como um ambiente dominado por vaidades e rivalidades mesquinhas. Os membros da ABL são personagens que se veem mais preocupados com a manutenção de suas reputações e de seus prestígios do que com a criação literária genuína. Essa crítica ao "sistema" da literatura brasileira é uma constante ao longo do livro, que questiona o papel da ABL e a maneira como a sociedade valoriza a produção intelectual de forma superficial.
O romance também aborda, de maneira bem-humorada, o elitismo e a hipocrisia de uma classe que, por um lado, busca um lugar de prestígio na sociedade, mas, por outro, é obcecada pelo poder e pela fama. A abordagem de Soares é, no entanto, mais leve e irônica do que incisiva, utilizando o humor como uma maneira de desafiar as convenções sociais e literárias sem ser excessivamente crítica ou punitiva.
### A Comédia de Situação e o Humor
Um dos maiores destaques do livro é, sem dúvida, o humor. Jô Soares é um mestre na arte de criar situações cômicas e na construção de diálogos rápidos e afiados. O livro transita com naturalidade entre o gênero policial e a comédia, criando momentos de grande tensão misturados com outros de puro absurdo.
O estilo de escrita de Soares é leve e divertido, o que torna a leitura agradável e fluida, mesmo diante da complexidade da trama. As interações entre os personagens, muitas vezes absurdas ou exageradas, servem para descontrair a narrativa e dar ao livro uma dinâmica que mantém o leitor envolvido. O autor utiliza referências literárias, culturais e históricas para enriquecer o texto, oferecendo camadas adicionais de significado e humor.
### O Desfecho
À medida que o romance se aproxima do final, a trama se complica com novos assassinatos e revelações que fazem com que o narrador e o leitor se questionem sobre a identidade do verdadeiro criminoso. O clímax da história é surpreendente, pois Soares consegue amarrar as pontas soltas de uma maneira que mistura inteligência e humor, dando um desfecho satisfatório, mas sem deixar de lado a ironia característica da narrativa.
O livro termina com uma reflexão sobre a natureza do poder, da vaidade e da fama, temas recorrentes ao longo da obra, que são tratados com um toque de leveza e crítica social.
### Obra de Destaque
*Assassinatos na Academia Brasileira de Letras* é uma obra que combina o gênero policial com a sátira literária, criando uma narrativa envolvente, cômica e, ao mesmo tempo, cheia de críticas sociais. Jô Soares, com sua habilidade de mesclar humor e mistério, consegue oferecer ao leitor uma história de mistério cheia de reviravoltas, mas também uma análise irônica do mundo literário e intelectual brasileiro. A obra se destaca pelo seu tom irreverente, pela criação de personagens marcantes e pela habilidade do autor em criar uma trama cheia de enigmas, enquanto tece uma crítica social afiada e bem-humorada.
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